A política e o político

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Renata Aquino

Ouvindo o Foro de Teresina, podcast da Revista Piauí, da semana passada, me incomodei muito com um comentário da Malu Gaspar, que, depois de criticar a candidatura de Jair Bolsonaro, disse que o PT também deve ser criticado porque tá colocando tudo em termos de bom e mau absolutos, sendo que Bolsonaro ainda não “”””””””fez””””””””” nada concreto.

Infelizmente, esse tipo de fala é produto de uma atitude muito comum, que considera a teoria como algo separado da prática. Pensei que é importante, mais do que nunca, trazermos pro debate da política institucional uma discussão do campo da teoria política, pautada na relação entre duas categorias distintas porém extremamente próximas: “a política” e “o político”.

Embora seja um debate da teoria política, essas reflexões buscam qualificar e aprofundar o entrelaçamento entre teoria e prática. É a tentativa de pensar qualificadamente as relações entre política institucional (a política) e a dimensão política da sociedade (o político).

Algo fundamental nesse pensamento [1] é que não existe separação defensável, quando analisada a sério, entre discurso (no sentido restrito de o que se diz e o que se escreve) e prática (o que se “faz concretamente”, como protesto na rua, projeto de lei apresentado, um espancamento, uma reivindicação de um grupo social, etc).

Ou seja, quando o bolsonazi fala o que fala sobre tortura, população LGBT, mulheres, negros e quilombolas, não faz o menor sentido dizer que isso não é “algo prático”. Porque teoria e prática não se separam, possuem uma relação impossível de analisar separadamente na medida dos efeitos que geram. Ambas se constroem mutuamente.

É por isso que autores como Ernesto Laclau e Chantal Mouffe [2] mobilizam o conceito de discurso, que poderia tranquilamente ser substituído por “práticas articulatórias”. Esses fazeres que ligam e conectam coisas acabam mudando os sentidos das práticas e criando novos centros de poder. Bolsonaro, com o que fala e o que faz, e com as críticas que recebe ou  deixa de receber, muda os centros de poder que ajudaram esse país a ter algum potencial para democracia.

Por exemplo: o Movimento Escola Sem Partido (ESP), quando surgiu, era algo minoritário. Esse movimento cresceu quando se conectou, se ligou, se articulou à defesa da família e ao ataque à “ideologia de gênero”. O ESP pós-ideologia de gênero não é o mesmo ESP que surgiu lá em 2004.

Esse ESP pós-ideologia de gênero serve como um centro de poder em torno do qual se constroem os significados de educação. Qual é o plano de educação de Bolsonaro? Uma boa educação para sua candidatura é uma educação sem doutrinação. Ou seja, agora os dois discursos existem em conjunto. Bolsonaro é o candidato que defende abertamente o ESP, e o ESP é o projeto de boa educação que o Bolsonaro defende.

Isso tem implicações nos dois lados da disputa política. As identidades são construídas por meio desse jogo de dentro e fora. Segundo as expectativas dessa identidade conservadora no que concerne à função social da educação escolar, Bolsonaro é aquele que vai impedir que professor estuprador-pedófilo-gayzista destrua minha “família tradicional”. Bolsonaro é aquele que vai impedir que minha existência enquanto pai/mãe de família seja aniquilada, etc.

Essa dinâmica política de construção de identidades por meio de identificação de um dentro e fora, amigo e inimigo, [3] é o que deixa ver que existe uma dimensão política que dá as condições de possibilidade da existência da sociedade. Estamos numa crise. Aquilo que nos fundava como sociedade (uma sociedade democrática e diversa sob a CF de 88) está em desmonte. Não sabemos mais o que nos funda como sociedade. E tudo o que Bolsonaro fala serve como gasolina pra esse caos.

A política institucional (mandato, eleição, procedimentos formais, ministério disso, secretaria daquilo) é somente a tentativa de concretizar e tornar duradouro no tempo ideias e identidades políticas que se formaram na luta política de maneira mais ampla. Qualquer análise política que leve em conta somente esse lado concreto da política será insuficiente. Falar de política remete à condição política da existência de qualquer identidade e vice-versa.

Para aqueles que insistem na separação entre essas dimensões da política e do político, tudo bem. Faz parte do jogo. Porém, particularmente, eu espero de pessoas que estão há muito tempo nesse meio (tanto na teoria política como na análise política feita por jornalistas de boa formação) mais consciência e honestidade sobre o trabalho que exercem. Períodos de crise também são oportunos: várias engrenagens ficam mais visíveis. Me parece pura cegueira ignorar os efeitos dessa dimensão “ontológica” em toda política.

Temos visto o crescimento do número de ameaças e agressões físicas a mulheres organizadoras do #elenão, por exemplo. Isso acontece porque um candidato misógino em primeiro lugar pautando todo o debate e a cobertura da mídia torna possível a existência e a publicidade dessa identidade violenta de quem comete esses crimes. Se isso não é “prático”, eu não sei o que seria.

 

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[1] Ver MARCHART, Oliver. Post-Foundational Theories of Democracy: Reclaming Freedom, Equality, Solidarity & LACLAU, Ernesto. A Razão Populista

[2] MOUFFE, Chantal; LACLAU, Ernesto. Hegemonia e Estratégia Socialista

[3] MOUFFE, Chantal. The Democratic Paradox

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