Combater o fascismo é combater o senso comum

Diogo Salles

[ATUALIZAÇÃO 9/10] Esse texto serviu como base para mais uma edição do nosso vlog, que disponibilizamos em nossa página do Facebook [ATUALIZAÇÃO 9/10]

Antes de começar, eu só queria dizer pra você que não dormiu bem de ontem pra hoje, que se sentiu engolido pela sensação de descontrole e impotência, que só consegue sentir medo do que aguarda no próximo dia: você não está sozinho; esse não é o fim, ainda mal começamos; separados somos fracos, mas juntos… juntos ninguém se mete com a gente.

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Nessa última semana, dois casos de violência contra professores chamaram atenção pela sua relação direta com o clima eleitoral.

Um deles se deu na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), onde um professor de linguística foi atacado por um aluno durante uma aula em que abordava a temática do fascismo

O outro caso foi em uma escola de Natal (RN), com um professor sendo ameaçado de morte por pais de aluno após uma aula em que explicou como funcionava a Lei Rouanet.

Casos assim não são novos, pelo contrário, vem se tornando cada vez mais comuns com o tempo, graças ao Escola Sem Partido e ao discurso da “ideologia de gênero”. Porém, corre o risco desse processo de normalização do ódio contra professores na forma de violência se intensificar ainda mais, especialmente durante e após essas eleições. É central tentar entender como e por que esse fenômeno se dá.

Para tentar responder essa questão eu quero usar como exemplo a discussão sobre urnas fraudadas que surgiu ontem e começar daí.

Uma questão interessante sobre as notícias e vídeos falsos a respeito das urnas é por que motivo as redes da extrema-direita continuam insistindo nessa polêmica?

Afinal, todas as pesquisas de intenção de voto até aqui mostravam o candidato da direita fascista à frente no primeiro e segundo turnos e o resultado do dia 7 ainda superou essas expectativas. Se eles estão ganhando, pra que insistir na ideia de que o processo eleitoral está sendo roubado deles?

Isso pode parecer contraditório, mas na verdade não é. O discurso do vitimismo sempre foi essencial para o fortalecimento da extrema-direita. Ela precisa se colocar sempre como os injustiçados que heroicamente e apesar dos revezes conseguem derrotar um sistema que está contra eles.

Inclusive, a narrativa anti-sistema é o que legitima o discurso de apologia à violência e ao ódio que alimenta o fascismo da extrema-direita. A lógica que se segue é uma que dita que se o sistema conspira contra mim e nunca estará do meu lado, logo, eu preciso tomá-lo à força.

Não há nada de verdadeiro nesse discurso, vale dizer. É só ver a recente migração do capital político de partidos como MDB para a candidatura de Bolsonaro para concluir que não há muita base factual para concluir isso. Porém, a postura anti-sistema, mesmo enquanto discurso, tem um profundo impacto na nossa ordenação política institucional e prática.

Ela não serve somente para unir a sociedade em torno fascismo, mas também para conter qualquer forma de oposição através da violência. Pois a oposição ao fascismo é confundida com o sistema injusto que supostamente se quer combater.

Se substituirmos a teoria da conspiração das urnas fraudadas por outras de tipo parecido, o mesmo padrão se repete. Esse é o caso do discurso da “doutrinação ideológica” nas escolas.

Essa ideia de que professores de “esquerda” doutrinam alunos para torná-los massa de manobra para partidos é ainda mais infundada do que urnas fraudadas. No entanto, ela funciona porque dá razão para aquilo que as pessoas que se sentem enganadas ou traídas pelo sistema querem acreditar. Que o sistema está contra elas. Que o diálogo é impossível. Que o cerco dos inimigos está fechando e que só resta destruí-los.

Esse inimigo em questão é o professor. Qualquer professor. Basta que seu senso de certeza seja questionado.

O fascismo que impregna os 46% dos votos que Bolsonaro e tantos outros deputados e senadores receberam é um que se alimenta de várias fontes. Provavelmente, uma parte desse eleitorado já está tão radicalizada que não há volta possível a curto prazo. Mas uma outra parcela dessas pessoas ainda pode ser alcançada.

Para isso, precisamos atacar a raiz do problema, que é o discurso anti-sistema. Precisamos mostrar que os representantes da extrema-direita que barganham esses votos em troca de uma resposta para os medos e inseguranças desses setores da sociedade não são uma alternativa às instituições, mas sim o que elas tem de pior.

A luta contra o fascismo é uma luta contra o senso comum.

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