Universidade pública, ensino a distância e os futebolistas da barbárie

Fernando Cássio (UFABC)

O meu colega e parceiro de pesquisa Salomão Ximenes iniciou uma discussão interessante que eu gostaria de complementar em alguns pontos.

As listas de e-mail e grupos de discussão da minha universidade, a UFABC, estão pegando fogo por conta da eventual implementação de um sistema de “Estudos Continuados Emergenciais” (ECE) em resposta ao isolamento forçado pela pandemia de Covid-19. A Reitoria da UFABC – que vem desempenhando um papel irrepreensível na condução da crise em nossa comunidade – tem feito questão de frisar que não se trata de uma mudança na modalidade de oferta dos cursos, inicialmente planejados para serem presenciais, para algum tipo de ensino a distância (EaD).

Apesar disso, uma das leituras correntes entre colegas e alunos é mesmo a de que o isolamento forçado é uma oportunidade de abrir novos flancos para o desmonte do ensino presencial nas melhores universidades do país, substituindo-o por um EaD que, se neste momento emergencial pode ter alguma serventia, depois servirá – tal como nas universidades privadas-mercantis, as lojinhas de diplomas – para baratear o ensino presencial nas instituições públicas. Nesse caso, baratear significa mesmo desqualificar, pois EaD de alta qualidade não custa barato. E se custa barato, como tantas universidades-shopping não cansam de demonstrar, é de baixa qualidade.

Não é sem razão que alguns prefiguram esse cenário de sucateamento, como aponta o Salomão Ximenes ao analisar a forma como o MEC lida com a questão e lança a bola para os centroavantes do empresariado educacional, sempre ávidos por transformar meia dúzia de limões em um oceano de limonada. A ganância não os vexa nem diante de uma crise humanitária de proporções apocalípticas. Desmontar a educação pública, devem supor, não tem qualquer relação com crises humanitárias.

“É A VIDA”

Sim, há estudantes em nossas universidades que não possuem computadores em casa, embora quase todos tenham acesso à internet em casa, pelo menos através do smartphone. Celulares, por seu turno, não substituem computadores para os fins da leitura e da escrita dos cursos universitários. Tudo isso deveria ser óbvio. E se não for óbvio nos países do mundo rico, deveria ser óbvio no Brasil. E se não for na maioria das universidades públicas ou de seus cursos mais elitizados, deveria ser para a educação básica pública, onde a preocupação maior neste momento é com a segurança alimentar dos alunos e de suas famílias. É gritantemente óbvio que qualquer ação emergencial que transponha em ferramentas digitais o ensino presencial das universidades e institutos federais excluirá parte dos estudantes em trancamentos semi-compulsórios de matrículas, reprovações e abandono de cursos. Será preciso lidar com essa exclusão; se não agora, assim que forem retomadas as atividades didáticas presenciais.

As dificuldades dos estudantes não provêm apenas da falta de acesso à internet ou a computadores, mas também da indisponibilidade de espaços de estudo nos lugares onde vivem, quase sempre – entre os jovens no início da graduação, pelo menos – na companhia de outras pessoas. Tudo aquilo que parece natural a professores universitários de classe média não é necessariamente natural para seus estudantes pobres. Saberão os meus colegas onde moram os seus alunos? Como vivem? O que comem? Se o seu mau desempenho em provas é fruto de preguiça, desleixo ou de uma jornada de trabalho extenuante? Tudo isso já faz parte dos debates sobre a democratização do ensino superior no Brasil: é a dimensão da “permanência”.

Se os abutres do empresariado educacional fazem marketing digital direcionado no meio do pandemônio (leiam o texto do Salomão Ximenes para entender), é porque sabem que alguém deseja ouvir o que eles têm a dizer. Eles sabem que o heroísmo didático e o voluntarismo dos que desejam implantar cursos a distância de uma hora para outra nas universidades florescem em um ambiente acadêmico coalhado de individualismo. Entre meus colegas ditos “voluntaristas”, por exemplo, a maioria realmente quer fazer o melhor trabalho possível, com ou sem ensino a distância.

Mas há também quem simplesmente se recuse a enfrentar longas semanas de reposição de aulas no pós-Covid-19, sendo por isso terminantemente contrários a aulas a distância ou até favoráveis a elas, desde que ninguém se escandalize com o fato de que alguns alunos (ninguém sabe quantos) serão mesmo excluídos dos cursos. Estão preocupados, a bem da verdade, em não prolongar o próprio esforço nem no agora nem no depois. Se alguns alunos vão ficar para trás, “isso são coisas da vida”, pontificaram alguns em listas de e-mail e em grupos do Facebook. Outros estão seriamente preocupados com a questão dos direitos autorais relacionados às importantíssimas aulas em vídeo que eles, servidores públicos e fantásticos didatas, teriam que gravar para a temporada de estudos emergenciais. Alguns alunos, por sua vez, se solidarizaram com os colegas que perderão o quadrimestre [1], desde que eles próprios não sejam obrigados a sofrer com eventuais atrasos nos cursos. “É a vida”, afirmou um deles. “Não dá pra salvar todo mundo”, lamentou um segundo. Já estão, como se vê, bem educados no hiperindividualismo.

Os comentários dos autodenominados “pragmáticos”, os sincerões com computador, internet e espaço adequado para estudar/trabalhar em casa, não deixam de nos remeter aos diagnósticos daqueles que, frente à explosão da mortalidade de idosos em países como Itália e Espanha, são capazes de enxergar efeitos previdenciários benéficos na pandemia do novo coronavírus: o popular “antes eles do que eu”. “Vão morrer alguns. Sim, vão morrer…”, disse Jair Bolsonaro ao apresentador Ratinho a respeito da pandemia (21 mar. 2020). “Se vai morrer alguns inocentes, tudo bem, tudo quanto é guerra morre inocente”, disse Jair Bolsonaro em 1999 ao defender que o regime militar brasileiro deveria ter matado “uns 30 mil, começando pelo FHC”.

“COMPREENDER” SIGNIFICA TRABALHAR

Me preocupo com meus alunos neste período de isolamento – com a sua saúde física e mental, com seu bem-estar e com a sua necessidade de manter uma vida minimamente funcional. Preocupações, aliás, que tenho em relação à minha própria vida neste momento. É em nome disso que não me oponho a utilizarmos as ferramentas que temos disponíveis para nos mantermos sãos. Durante o período de isolamento, talvez os estudantes precisem mesmo ser lembrados de que ainda são estudantes e de que estão matriculados em ótimas instituições de ensino superior. Contudo, precisamos ter a sensibilidade de compreender que muitos deles – e por razões diferentes – ficarão de fora das balbúrdias a distância que faremos, em caráter emergencial e movidos pelo melhor voluntarismo. “Compreender”, nesse caso, não é simplesmente colocar a mão no ombro de nossos estudantes em sinal de solidariedade, mas sim, uma vez terminado o isolamento, arregaçar as mangas para repor aulas presenciais como se não houvesse amanhã. “Compreender” é entender que desigualdades não são coisas da vida.

Se o bate-bola entre o MEC e o farisaísmo educacional está correndo solto e seduzindo a fração mais amesquinhada das comunidades universitárias, é preciso deixar claro que toda solução tecnológica para enfrentar os efeitos do nosso isolamento pandêmico são “emergenciais”. O debate acadêmico sobre EaD nas universidades públicas é de outra ordem e se dá a partir de bases bem diferentes das de agora [2]. Neste momento singular, a ordem do dia deve ser nos mantermos unidos para impedir que as instituições de ensino, pesquisa e extensão públicas e de alta qualidade que temos no Brasil sejam devoradas não apenas pelo Covid-19, mas pelos futebolistas da barbárie educacional ligados ao mercado e a este governo de canalhas.

NOTAS

[1] Diferentemente da grande maioria das universidades públicas, o ano letivo na UFABC é dividido em três quadrimestres, o que significa que a pandemia interrompeu o primeiro quadrimestre letivo do ano já pelo meio e que o tema “reposição de aulas” é particularmente espinhoso entre nós.

[2] Ver: Catarina de Almeida Santos. “Educação a Distância: tensões entre expansão e qualidade”. In: Fernando Cássio (org.). Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de Ensinar. São Paulo: Boitempo, 2019. p. 53-58.



MAIS: O professor Fernando Cássio gravou um podcast conosco falando sobre a ação do mercado educacional sobre a educação pública. Você pode ouvir ele aqui.

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